A língua lambe as pétalas vermelhas
da rosa pluriaberta; a língua lavra
certo oculto botão, e vai tecendo
lépidas variações de leves ritmos.
E lambe, lambilonga, lambilenta,
a licorina gruta cabeluda,
e, quanto mais lambente, mais ativa,
atinge o céu do céu, entre gemidos,
entre gritos, balidos e rugidos
de leões na floresta, enfurecidos.
3.7.09
Retrato de uma princesa desconhecida
Para que ela tivesse um pescoço tão fino
Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule
Para que os seus olhos fossem tão frontais e limpos
Para que a sua espinha fosse tão direita
E ela usasse a cabeça tão erguida
Com uma tão simples claridade sobre a testa
Foram necessárias sucessivas gerações de escravos
De corpo dobrado e grossas mãos pacientes
Servindo sucessivas gerações de príncipes
Ainda um pouco toscos e grosseiros
Ávidos cruéis e fraudulentos
Foi um intenso desperdiçar de gente
Para que ela fosse aquela perfeição
Solitária exilada sem destino
2.7.09
A Cris mandou, e é perfeito. A música chama-se "Você, você: uma canção edipiana".
1.7.09
30.6.09
29.6.09
Nova Poética
Manuel Bandeira
Indivisíveis
Mário Quintana
O meu primeiro amor e eu sentávamos numa pedra
Que havia num terreno baldio entre as nossas casas.
Falávamos de coisas bobas,
Isto é, que a gente achava bobas
Como qualquer troca de confidências entre crianças de cinco anos.
Crianças...
Parecia que entre um e outro nem havia ainda separação de sexos
A não ser o azul imenso dos olhos dela,
Olhos que eu não encontrava em ninguém mais,
Nem no cachorro e no gato da casa,
Que tinham apenas a mesma fidelidade sem compromisso
E a mesma animal - ou celestial - inocência,
Porque o azul dos olhos dela tornava mais azul o céu:
Não, não importava as coisas bobas que diséssemos.
Éramos um desejo de estar perto, tão perto
Que não havia ali apenas duas encantadas criaturas
Mas um único amor sentado sobre uma tosca pedra,
Enquanto a gente grande passava, caçoava, ria-se, não sabia
Que eles levariam procurando uma coisa assim por toda a sua vida...
(...)
Caio Fernando Abreu.
caberá ao nosso amor o "eterno" ou o "não dá"
pode ser cruel a eternidade, eu ando em frente por sentir vontade
Eu quis te convencer mas chega de insistir
caberá ao nosso amor o que há de vir
pode ser a eternidade má, caminho em frente pra sentir saudade
Paper clips and crayons in my bed, everybody thinks that I'm sad
I take my ride in melodies and bees and birds will hear my words
will be both us and you and them together
I can forget about myself trying to be anybody else
I feel allright that we can go away and please my day
I'll let you stay with me if you surrender.
26.6.09
Dedicatória
É só teu o meu livro; guarda-o bem;
Nele floresce o nosso casto amor
Nascido nesse dia em que o destino
Uniu o teu olhar à minha dor.
25.6.09
23.6.09
As canções que você fez pra mim.
Roberto Carlos - Erasmo Carlos
E trouxe um mundo maior do que mil pernas minhas;
E me provou que não é bom ser hermético, antipático,
Como uma daquelas latas de biscoito importado, mas cheia de angústia.
Você fundou em mim o cuidado,
E um amor que mais parece asma, de tão amor que é.
E até hoje eu me reprovo, e tento esconder minhas dores pra não te fazer doer.
Sem conseguir, encosto minhas costas nas suas torcendo pra você mudar de lado e me encontrar à sua espera, que é como estou desde que me lembro.
O mundo só me parece imenso porque você me mostrou que ele pode ser.
(Eu sei) ele não teria cor sem você.
Ou eu não teria sem você.
22.6.09
- Cada um tem suas medidas.
- As suas são despropositadas. Você é sempre a mesma. Por otimismo, por ser muito voluntariosa, esconde de si própria a verdade e quando ela salta diante de seus olhos você desaba ou explode.
Simone de Beauvoir, "A idade da discrição".
Tirei daqui.
21.6.09
1. os homens são hilários; 2. eu convivo com as pessoas mais divertidas e inteligentes; 3. mulher de verdade quer amor como patrimônio, meninos. Mas um amor que não vacile o tempo todo, porque aí é chatinho (embora seja muito engraçado).
Bola de cristal
Mário Quintana
A praça, o coreto, o quiosque,
as primeiras leituras, os primeiros
versos
e aquelas paixões sem fim...
Todo um mundo submerso,
com suas vozes, seus passos, seus silêncios
- ai que saudade de mim!
Deixo-te, pobre menino, aí sozinho...
Que bom que nunca me viste
como te estou vendo agora
- e é melhor que seja assim...
Deixo-te
com os teus sonhos de outrora, os teus livros queridos
e aquelas paixões sem fim!
e a praça...o coreto...o quiosque
onde compravas revistas...
Sonha, menino triste...
Sonha...
- só o teu sonho é que existe.
Canção do berço
Carlos Drummond de Andrade
O amor não tem importância.
No tempo de você, criança,
uma simples gota de óleo
povoará o mundo por inoculação,
e o espasmo
(longo demais para ser feliz)
não mais dissolverá as nossas carnes.
Mas também a carne não tem importância.
E doer, gozar, o próprio cântico afinal é indiferente.
Quinhentos mil chineses mortos,
trezentos corpos de namorados sobre a via férrea
e o trem que passa, como um discurso, irreparável:
tudo acontece, menina,
e não é importante, menina,
e nada fica nos teus olhos.
Também a vida é sem importância.
Os homens não me repetem
nem me prolongo até eles.
A vida é tênue, tênue.
O grito mais alto ainda é suspiro,
os oceanos calaram-se há muito.
Em tua boca, menina,
ficou o gosto do leite?
ficará o gosto de álcool?
Os beijos não são importantes.
No teu tempo nem haverá beijos.
Os lábios serão metálicos,
civil, e mais nada, será o amor
dos indivíduos perdidos na massa
e só uma estrela
guardará o reflexo
do mundo esvaído
(aliás sem importância).
Aventura na casa atarracada
Movido contraditoriamente
por desejo e ironia
não disse mas soltou,
numa noite fria,
aparentemente desalmado;
- Te pego lá na esquina,
na palpitação da jugular,
com soro de verdade e meia,
bem na veia, e cimento armado
para o primeiro a andar.
Ao que ela teria contestado, não,
desconversado, na beira do andaime
ainda a descoberto: - Eu também,
preciso de alguém que só me ame.
Pura preguiça, não se movia nem um passo.
Bem se sabe que ali ela não presta.
E ficaram assim, por mais de hora,
a tomar chá, quase na borda,
olhos nos olhos, e quase testa a testa.
.jpg)